Clima: Passar das palavras aos actos - Diário de Notícias (24.10.2018) [fr]

Artigo conjunto dos embaixadores de França, Jean-Michel Casa, e da Alemanha, Christof Weil, publicado no "Diário de Notícias" (on line) a 24 de Outubro de 2018.

Passar das palavras aos actos

"No seguimento do primeiro “One Planet Summit”, organizado em Dezembro de 2017, o objectivo ficou claro: reforçar a acção multilateral em torno de 12 compromissos no âmbito da luta contra as alterações climáticas. Menos de um ano depois, a França e a Alemanha encontram-se, mais do que nunca, fortemente mobilizadas, nomeadamente com os seus parceiros europeus, entre os quais se destaca Portugal. Com efeito, uma ilação a retirar desta segunda edição do “One Planet Summit”, em Nova Iorque, a 26 de Setembro passado, será concretamente a da vontade mas, também, dos esforços efectuados por um grupo de importantes atores públicos e privados em matéria de transição ecológica e solidária. Berlim, Lisboa e Paris estão no grupo da frente, comprometem-se e desenvolvem acções concretas, colectivas e a vários níveis. Existe um efeito de contágio: A Espanha também anunciou que se comprometia em atingir a neutralidade de carbono até 2050.

É urgente. Os cientistas lembram-nos devidamente: publicado a 8 de Outubro, o relatório do GIEC confirma que as emissões de gases com efeito de estufa gerados pelas actividades humanas são a causa principal do aquecimento climático, com um aumento da temperatura terrestre de 0,17°C por década, desde 1950. O relatório confirma que o clima mundial já aqueceu 1°C em média relativamente à era pré-industrial e descreve pormenorizadamente o impacto de um aquecimento climático de 1,5°C: intensificação dos eventos climáticos extremos, aumento do nível das águas, acidificação dos oceanos, baixa de produção agrícola, extinção de espécies, desertificação, aumento das ameaças à biodiversidade e às populações. Ora, ao ritmo do aquecimento actual, o limiar de 1,5°C será ultrapassado entre 2030 e 2052.

Como salientou Valérie Masson-Delmotte, co-presidente do grupo de trabalho sobre as ciências do clima do GIEC “Com + 1,5°C ou + 2°C os mundos serão muito diferentes. Conter o aquecimento exige acções muito ambiciosas em todos os domínios – energia, indústria, gestão das terras, construções, transportes, urbanismo -, o que significa uma alteração radical de comportamentos e de modos de vida. Se não agirmos até 2030, a porta fechar-se-á”.

Portanto, perante estas perspectivas dramáticas, os custos humanos e ambiental desastrosos é necessário que haja um sobressalto colectivo. E, mesmo quando não é fácil, há que avançar, passo a passo, a partir de agora. Para este efeito, a Alemanha e a França constroem e intensificam uma cooperação interministerial estreita. Fruto desta sinergia, o grupo de trabalho interministerial “Meseberg” implementado quando do Conselho de ministros franco-alemão do passado dia 19 de Junho, realizado em Meseberg, na Alemanha, ampliou-se, a 6 de Setembro de 2018, para definir uma leitura comum da transição energética e das ferramentas que permitem responder à ambição da neutralidade de carbono. A este respeito, a reflexão sobre o preço do carbono é uma prioridade europeia e internacional – o prémio Nobel que recompensa este ano os trabalhos pioneiros dos economistas americanos Willian Nordhaus e Paul Romer sobre este tema, salienta-o oportunamente. Da mesma forma, o aviso sobre os objectivos de descarbonização dos países membros da UE que se comprometem, colectivamente, a reduzir em 35% as suas emissões de gases com efeito de estufa até 2030 tem de se transformar em actos.

Para esta mobilização excepcional, todos têm de se esforçar. Os governos francês e alemão procedem nesse sentido para que a UE actualize os seus compromissos durante a COP24 e actue concretamente. Quando do último Conselho de ministros europeus do ambiente, do passado dia 9 de Outubro, foi fixado um objectivo de -35% de emissões de CO2 em 2030, relativamente a 2021, para os automóveis novos, elevando assim o objectivo proposto inicialmente pela Comissão Europeia, que era de -30%. Um objectivo intermédio de -15% em 2025 garantirá que os construtores de automóveis fornecem, desde já, um esforço significativo. Este objectivo significa que, em média, os novos veículos consumirão menos um terço de carburantes para percorrer as mesmas distâncias do que na década anterior, reduzindo assim as poluições e, em grande parte, a factura energética dos automobilistas.

Atingir estes objectivos pressupõe que haja não só verdadeiras rupturas tecnológicas em relação às motorizações térmicas como, também, a introdução de uma grande proporção de veículos eléctricos e híbridos recarregáveis nas gamas dos construtores, dinamizando assim a revolução em curso na área dos transportes.

A França e a Alemanha, assim como Portugal, partilham de ambições comuns em matéria de acção climática. Esta linha de orientação comum encontra-se no trabalho que desenvolvem a nível internacional para executar o Acordo de Paris. As suas interligações multiplicam-se no âmbito dos programas de cooperação sobre o clima: Cities Climate, Efficacité Energétique des Bâtiments, Carbon Pricing Leadership Coalition e International Solar Alliance, para só citar alguns. Está a ser desenvolvido um trabalho colectivo que visa aliar os desafios sobre o clima e a segurança juntamente com um projecto de melhoramento dos sistemas de alerta precoce em caso de eventos climáticos perigosos. A iniciativa CREWS visa, por exemplo, aumentar as capacidades dos sistemas de alerta em matéria de prevenção e de informação sobre os riscos naturais.

O conjunto destes compromissos confirma a maior batalha que se tem pela frente actualmente. O clima continua a ser uma prioridade para a França que colocará as dinâmicas colectivas em matéria de clima como tema fulcral da sua presidência do G7, em 2019. Da mesma forma, a Alemanha deseja fazer deste assunto uma prioridade e inscrevê-la na ordem do dia, no âmbito da sua participação no Conselho de Segurança, em 2019-2020. Mais do que nunca, o combate às alterações climáticas é um desafio colectivo ao qual cada um de nós tem de dar a sua contribuição. É urgente acabar com a política da avestruz: está em causa a sobrevivência da humanidade!"

Artigo no "Diário de Notícias" (on line).

publicado em 02/11/2018

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