Imposição das insígnias de Chevalier des Arts et des Lettres ao Dr. João Fernandes [fr]

Senhor Presidente,
Senhoras, Senhores,
Senhora Cônsul-geral, Chère Aude,
Caros amigos,

Gostaria de começar por lhe agradecer, Senhor Presidente, por nos receber neste magnífico Museu de Serralves, lugar incomparável, único, “locus solus” como lhe teria chamado Raymond Roussel.

Estamos hoje aqui reunidos para a ocasião, muito festiva, de homenagem a João Fernandes.

João Fernandes, o Senhor é director de museu, comissário de exposições, programador, mas também ensaísta, professor, defensor incansável da cultura em toda a sua diversidade. Por uma feliz coincidência de datas, comemoramos também esta semana a Festa da Francofonia. Não podíamos, por isso, encontrar melhor momento para prestar homenagem ao militante da arte contemporânea e ao amigo da França, que é.

João Fernandes e a França partilham uma longa história de amizade e uma cumplicidade sem falhas que pode descrever-se como sendo feita de sucessivos “quadros de uma exposição”. Como não tenho o talento musical de um Moussorgski vou limitar-me a descrevê-los.

O primeiro quadro desenhou-se nos anos oitenta, nos bancos da Faculdade de Letras do Porto onde estava a preparar uma licenciatura em Português e Francês. Esses foram também anos de intervenção e de militância política e cultural durante os quais se construiu uma relação calorosa com o Institut Français de Porto com aventuras fantásticas como as quinzenas francesas, os encontros intercélticos, a organização de colóquios, de conferências, de exposições.

O segundo quadro da nossa exposição data do início dos anos noventa. Na altura em que ensinava fonética e linguística no Instituto Politécnico, a Câmara Municipal do Porto veio propor-lhe a organização de um festival de arte contemporânea. O João Fernandes aceitou o desafio, com audácia e talento. Foram as “Jornadas de Arte Contemporânea do Porto” que, durante três edições, abriram a cidade à contemporaneidade sob todas as suas formas: música, dança, fotografia, cinema, instalações e performances.

Os artistas franceses tiveram sempre um lugar de destaque nestas programações com as instalações de Sophie Calle, os espectáculos de dança de Régine Chopinot e de Mathilde Monnier, os concertos dos grupos 2 E 2 M, Sextuor de l’Artois, o compositor Paul Meffano e tantos outros.

Esta experiência constituiu uma viragem na sua carreira uma vez que o levou a deixar o ensino para se consagrar inteiramente ao comissariado e à organização de exposições internacionais.

Em 1996, Vicente Todolli, nomeado Director do Museu de Serralves, escolheu-o para director adjunto. É o terceiro quadro do nosso percurso visual, o de maior formato e também o mais denso. Este quadro representa os dezasseis anos na Fundação de Serralves, dos quais dez como director.

Da exposição « CIRCA 1968 » até à « Locus Solus », o Senhor contribuiu para fazer do Museu de Serralves a instituição de referência da arte contemporânea em Portugal. Neste quadro, se observarmos bem os detalhes, podemos distinguir mais de duzentas exposições, uma centena de espectáculos de dança, performances, inúmeros concertos de música contemporânea e de jazz e de projecções de filmes.

Nele se encontra o reflexo dos grandes criadores plásticos que admira: Andy Warhol, Paula Rego, Francis Bacon, Angelo de Sousa, Robert Rauschenberg, Vítor Pomar, Claes Oldenburg, Manuel Casimiro, Richard Long, Pedro Cabrita Reis, Sol Lewitt, Fernando Lenhas, Steve Mc Queen, Juan Muñoz, Manoel de Oliveira e muitos outros.

Neste quadro distinguem-se os grandes nomes da arte contemporânea francesa, magnificamente postos em evidência: Christian Boltanski, Raymond Hains, Daniel Buren, Agnès Varda com as suas instalações. Vemos surgir os mais jovens como Didier Fiuza Faustino ou Anne Lise Costa, que João Fernandes ajudou a tornar conhecidos. Encontramos também artistas mais antigos, François Dufrène e os Lettristes e volto a falar de Raymond Roussel.

A exposição dedicada a Raymond Roussel, que será inaugurada daqui a pouco, preparada com François Piron e Manuel Borja-Villel, mostra especialmente a influência que ele teve nos movimentos artísticos de “avant-garde” na Europa.

João Fernandes, se, por curtos instantes, eu pudesse fazer de crítico de arte, diria que em todos estes quadros se nota o traço do artista:
- a sua capacidade de construir projectos e parcerias baseadas na exigência e na qualidade, mas também na estima e na amizade que lhe permitiram criar relações estreitas com numerosas instituições e muitas delas, francesas.
- a sua vontade de servir a arte contemporânea, transmitir as suas mensagens e fazer com que ela seja apreciada pelo grande público.

Odilon Redon dizia : « L’artiste vient à la vie pour un accomplissement qui est mystérieux. Il est un accident. Rien ne l’attend dans le monde social ». (“O artista vem a esta vida para cumprir algo misterioso. Ele é um acidente. No mundo social, nada o espera”). O João Fernandes tem sido um “barqueiro” que estabelece a ligação entre o mundo da arte e o mundo social, que nos leva de uma margem para a outra.

E noto também o registo do atelier deste artista: quer dizer, a qualidade humana e profissional da grande família de Serralves. Da Presidência e do Conselho de Administração à Direcção, passando pelas equipas que o acompanham, ao serviço das exposições, das artes performativas, aos serviços educativos, à biblioteca, de todos recebemos um acolhimento caloroso, de excelência, eficiência e uma grande simpatia.

O próximo quadro desta exposição ainda só está em esboço. Disseram-me que será muito interessante, como os anteriores.

Paladino da arte contemporânea, parte agora para novas aventuras, novas conquistas. É o que fazem os cavaleiros, mesmo os cavaleiros da arte contemporânea. Desta vez, vai partir para se encontrar com uma rainha, o Museu Nacional Rainha Sofia, em Madrid.

Cher João Fernandes,
Au nom du Ministre de la Culture et de la Communication et en vertu des pouvoirs qui me sont conférés, je vous remets les insignes de Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres.

Publiée le 09/04/2012

Actualizado em: 05/04/2012

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