Entrevista concedida pelo Embaixador ao Diário de Notícias [fr]

O Embaixador Jean-Michel Casa concedeu uma entrevista ao "Diário de Notícias", após a segunda volta das presidenciais francesas.

Jean-Michel Casa : "Macron tem carisma e uma verdadeira convicção europeia"

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Embaixador Jean-Michel Casa
© Orlando Almeida / Global Imagens

09 DE MAIO DE 2017
Helena Tecedeiro

No seu gabinete na embaixada de França em Lisboa, Jean-Michel Casa diz ter sentido alívio ao saber da vitória de Emmanuel Macron. Europeísta convicto, o embaixador garante que o novo presidente tem propostas para uma UE "mais dinâmica e mais virada para o emprego e crescimento".

As primeiras reações à vitória de Macron foram de alívio. A sua também?

Sim. Foi um Ouf! pessoal. Como representante de França, tenho um certo dever de reserva, mas como cidadão, foi um Ouf! de alívio por esta vitória da democracia. Tenho vontade de recuperar as palavras do presidente português e dizer que foi uma votação "formidável", que encarna a democracia, o Estado de direito, os valores fundamentais de França. A Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Tudo o que é a França das Luzes, esses ideais que a França sempre quis partilhar com o mundo. Foi também um Ouf! de alívio porque sou, por convicção pessoal, pró-europeu. E é uma satisfação ver eleito de forma triunfal o candidato mais pró-europeu. Não fui eu que usei a expressão, foi o ministro dos Negócios Estrangeiro alemão, foi o comissário português Carlos Moedas, que esta manhã dizia que a França pode recuperar o lugar no centro da Europa. Não é só uma imagem geográfica, é uma imagem política. É muito importante que França, a inspiradora da construção europeia, um dos membros fundadores, tenha um papel central de líder nas ideias. E esse é o desejo de Emmanuel Macron.

Não é uma coincidência ele ter chegado à pirâmide do Louvre ao som do Hino à Alegria, o hino europeu...

Não. Não foi uma coincidência. Acho que a Europa foi a melhor coisa que fizemos nas últimas seis décadas. Apesar dos seus defeitos, das suas imperfeições - há coisas que podem ser melhoradas. Para pessoas que estão convencidas que a Europa é o bem da França e que França está no coração da Europa, aqueceu-nos o coração ver Macron avançar sozinho, em direção ao seu destino, ao som do Hino à Alegria. Não é só o hino europeu, é um hino à alegria. É todo um símbolo.

Num momento em que há tantos desafios à UE, crise migratória, brexit, uma França forte no eixo franco-alemão é mais importante do que nunca?

Claro. O que celebramos hoje também em França, e Emmanuel Macron esteve esta manhã no Arco do Triunfo, é a vitória sobre o nazismo. Há uma coincidência formidável destas três datas: a eleição de Emmanuel Macro, a celebração entre o presidente cessante e o presidente eleito, da vitória contra o nazismo a 8 de maio 1945 e [hoje] o Dia da Europa. O Dia da Europa é o quê? É antes de mais uma iniciativa francesa de reconciliação com a Alemanha e a partir daí criou-se o núcleo de uma Europa de paz, de prosperidade que se alargou. E há ainda os que não puderam estar entre os membros fundadores. Estou a pensar em Portugal ou Espanha porque a situação política era diferente mas que têm o seu lugar na Europa de amanhã - mais integrada, mais ativa. Sim, há muito trabalho a fazer numa Europa que pode fazer mais. Está no programa de Emmanuel Macron [pega no programa]. Não estou aqui para fazer propaganda mas li-o, claro, e há todo um enorme capítulo dedicado à Europa. Era o único candidato a ter um capítulo tão importante dedicado à Europa, com muitas propostas para uma Europa mais ativa, mais dinâmica, mais virada para o emprego e o crescimento. Com a ideia de um orçamento e um ministro das Finanças da zona euro, de um orçamento para o investimento.

Acha que vai ser difícil impor essas ideias numa Europa tão dividida...

Nada é fácil na UE. Mas o que é importante é ter pessoas determinadas, carismáticas. E Macron tem carisma, tem preparação, tem dinamismo e uma verdadeira convicção europeia. Conheço-o um pouco pessoalmente, cheguei a trabalhar com ele. É um europeu com convicções profundas.

Portugal pode agora esperar uma cooperação ainda maior com a França?

Já há uma grande cooperação. Foi muito simbólico o presidente e o primeiro-ministro terem ido celebrar o Dia de Portugal em França no ano passado. Foi um gesto formidável para celebrar a amizade franco-portuguesa, a importância da comunidade portuguesa de França e esta ligação forte que temos na Europa. Mas se lermos o programa de Macron é impressionante como as suas ideias se aproximam das do governo português. Estou extraordinariamente otimista em relação à relação de Portugal e França na Europa. Precisamos mais do que nunca de sermos aliados. Todos os países que partilham uma visão: França, Itália, Espanha e, claro, Portugal. Mas também queremos agir em parceria com os nossos amigos alemães. Sem França e a Alemanha nada é possível.

Com Macron podemos esperar uma França mais europeia, mas também uma França com um papel mais relevante no mundo?

O que foi marcante nesta campanha, e sobretudo no debate da semana passada, foi a diferença entre Macron e a outra candidata. A candidata que perdeu. Ele foi muito claro sobre a vontade que tem de fazer a França desempenhar o seu papel no mundo. Temos uma história, um passado. E nem tudo é glorioso, Macron falou sobre isso. Manifestou arrependimento em relação a alguns períodos da nossa história. Mas Macron disse-o ontem: os franceses fizeram a escolha da civilização europeia e do respeito pela nossa herança republicana. Temos de ter orgulho na história mas o que interessa é o que podemos fazer numa França reconciliada. É importantes esta ideia de união para tentar resolver os problemas da sociedade francesa. Porque há coisas que não estão bem em França.

A economia é a prioridade?

Com certeza será uma prioridade. Até porque Macron é uma pessoa muito competente na economia. Foi inspetor das Finanças, teve uma experiência na banca, foi depois conselheiro económico do presidente Hollande e foi ministro da Economia. No debate mostrou a importância que dá à economia e às questões sociais. Ao mesmo tempo a vontade de modernizar, de fazer poupanças, de respeitar as nossas obrigações europeias. Não porque nos são impostas pela Europa. É uma escolha que fizemos em comum, porque é preciso controlar as finanças públicas. Macron anunciou um esforço para pôr as finanças públicas em ordem e gastar mais em coisas úteis. Ele tem a ideia de investir mais no crescimento, na formação, na luta contra o desemprego, contra as desigualdades sociais. A economia francesa precisa de respirar, de ser mais flexível.

Foi uma grande vitória de Macron, mas Marine Le Pen teve mais de dez milhões de votos e prometeu renovar a Frente Nacional. Há a possibilidade de ela vir a ser a líder da oposição?

Prefiro não falar nem da candidata nem do seu partido... Mas não acredito que esse partido, tão contrário aos ideias republicanos, possa ser o líder da oposição. Não me quero pronunciar sobre a política interna francesa. Mas não, não acredito que depois da campanha que fez essa candidata e depois do debate terrível de quarta-feira passada, após esta derrota esmagadora, ela seja a mais qualificada para ser líder da oposição.

É inegável que França assistiu ao desaire dos partidos tradicionais e que surgiu um novo cenário político?

Isso é para os partidos resolverem. O novo presidente desejou, como é óbvio, uma maioria. Uma maioria conforme ao seu slogan En Marche! A única coisa que posso dizer é que é desejável que o presidente tenha uma maioria que lhe permita governar. Para quê eleger um presidente jovem, renovador, o mais jovem da história da V República se não lhe dermos uma maioria para governar?

Acha injusto que todos refiram a juventude de Emmanuel Macron?

Para mim foi uma imensa felicidade, pela primeira vez na vida, votar em alguém mais jovem do que eu. Acho formidável em termos de renovação da política francesa. Ser jovem não é uma qualidade nem um defeito, é um símbolo. A sua juventude e o seu programa: ambos encarnam uma renovação. Claro que há problemas em França, pessoas que sofrem. E Macron tem vontade de resolver isso. Mas quer fazê-lo sem pessimismo, sem essa visão fatalista de uma França em declínio.

- Link : http://www.dn.pt/mundo/interior/macron-tem-carisma-e-uma-verdadeira-conviccao-europeia-7949790.html

publicado em 15/05/2017

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