Discurso de Pascal Teixeira da Silva, Embaixador de França em Portugal

Discurso de Pascal Teixeira da Silva, Embaixador de França em Portugal por ocasião da imposição das insígnias de « Commandeur de l’Ordre des Arts et des Lettres » ao Arquitecto Álvaro Siza Vieira Porto, 30 de Junho de 2011

Senhor Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos

Senhores e Senhoras

Caras amigas e amigos

Caro Álvaro Siza

É uma grande honra e um enorme prazer estar aqui convosco nesta admirável Casa de Chá da Boa Nova e permitam-me começar por agradecer ao Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, Dr. Guilherme Pinto, por nos receber com tanta simpatia.

Para nós era importante que esta reunião amigável tivesse lugar na cidade onde nasceu, Caro Alvaro Siza, e neste local emblemático que é, de alguma forma, o ponto de partida para uma obra rica, múltipla, densa que, para além da arquitectura, marca a história da Arte Contemporânea.

E como se torna difícil desta vez entregar-me ao exercício, habitual em qualquer condecoração, de lembrar aos convidados a vida e a obra do homenageado !

Antes de mais, porque a sua modéstia, traço de personalidade e de abordagem da sua criação arquitectónica, torna os elogios embaraçosos. Todos sabemos que prefere o prazer de uma conversa, aos longos discursos. E também, como resumir a sua obra? Em algumas linhas ? Em algumas páginas ? Seria certamente necessário um livro como dezenas dos que já o homenagearam. Como evocar mais de 250 projectos realizados por todo o mundo, nos cinco continentes. Pretender citá-los todos poderia parecer vão e, no entanto, todos o merecem. Entre eles:
- As suas primeiras obras, como esta magnífica Casa de Chá, virada para o mar e ao mesmo tempo tão protectora, ou a vizinha Piscina das Marés e o seu restaurante, sem esquecer a outra piscina, a da Quinta da Conceição.
- As casas, começando pelas quatro vivendas de Matosinhos, seguidas de dezenas de outras, de Moledo do Minho a Setúbal.
- Os projectos de compromisso e generosidade, nascidos no calor fraterno da Revolução dos Cravos, as Casas sociais da Bouça, ou as do Bairro da Malagueira em Évora, projecto que qualificou de grande esforço; depois, o edifício de apartamentos de Kreuzberg, em Berlim.
- Os edifícios universitários, entre os quais a sua Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, mas também a Escola Superior de Educação de Setúbal ou a Faculdade de Ciências da Informação em Santiago de Compostela.
- Evoquemos igualmente os museus, os centros culturais, as bibliotecas: Serralves no Porto, o Centro Galego de Arte Contemporânea de Santiago de Compostela, o da Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre, a Biblioteca Municipal de Viana do Castelo,
- não esquecendo a Igreja de Marco de Canaveses e o Pavilhão de Portugal para a Expo 98.
- e, ainda, os numerosos estudos e planos de ordenamento urbanos do Porto, Lisboa, Macau, Veneza, Montreuil, Sevilha, Belo Horizonte.

Só me faltam enumerar cerca de mais 220 projectos... E o Siza disse que ainda há uma quantidade deles não construídos aos quais está muito apegado, como o de Salzburgo, por exemplo.

Esta obra que faz de Alvaro Siza Vieira um homem e um nome incontornáveis da história das artes e da cultura dos séculos XX e XXI, pela qual recebeu todos os prémios e distinções (trinta e nove se as contas não nos enganam) com que um arquitecto pode sonhar. Do Pritzker ao Prémio Mies van der Rohe, à Medalha de Ouro do Colégio de Arquitectura de Madrid, ao Prémio nacional de Arquitectura, ao Prémio Sacil, à Medalha Alvar Aalto, ao Prémio Príncipe de Gales da Universidade de Harvard, ao Grande Prémio Especial de Urbanismo de França, ao Prémio Raínha Isabel.

Se, como diz Fernando Pessoa “o bom português é várias pessoas ao mesmo tempo”, o Alvaro Siza é um excelente português porque existem outros nele.

Existe o designer. Autor de inúmeras criações a começar por estas mesas, estes sofás e estes candeeiros especialmente desenhados para a Casa do Chá, passando pelo mobiliário urbano, o mobiliário de escritório, o mobiliário de casa, da sala de jantar ao equipamento para casa de banho, com um extraordinário cinzeiro de fixar no espelho o que permite - delicadeza ou perversão suprema -, fumar enquanto se barbeia ou, para parafrasear uma célebre resposta de jesuíta, de se barbear enquanto fuma.

Existe também o desenhador. O que agrega todas as criações de Alvaro Siza. O traço que une as suas obras é o traço do desenho. Já confessou muitas vezes que atribui muita importância ao desenho. O Siza desenha como respira. A sua obra gráfica é hoje tão conhecida como a sua arquitectura.

A maior parte dos seus desenhos obedece, diz ele, a um objectivo preciso: encontrar a forma que responde à função para, a seguir, se libertar dela, abrindo-se a um destino imprevisível através de um diálogo com o ambiente e muitas vezes com a população interessada numa espécie de dialéctica viva e dinâmica.
Mas existem ainda os outros, desenhos de prazer, de repouso, um retrato minucioso ou um simples esboço, que iluminam o instante.

Com Alvaro Siza o desenho é projecto – claro - mas também é desejo, libertação, uma maneira de comunicar, dúvida ou descoberta, gesto contido ou utopia. Uma caligrafia através da qual o autor nos revela o seu mundo.

E por fim, last but not the least, existe o professor, discípulo e mestre, herdeiro do que se designa hoje por Escola do Porto (que não era só a Escola da Belas Artes do Porto que se tornou na Escola de Arquitectura do Porto), mas a escola como corrente de pensamento, corrente artística que marcou a arquitectura contemporânea a nível internacional e que está aqui muito bem representada hoje. E ficaríamos zangados connosco próprios, e o Alvaro Siza decerto também ficaria zangado connosco, se não evocássemos o nome de Fernando Távora, de entre todos os mestres desta Escola, aquele que, segundo disse, mais o influenciou sobre o ponto de vista humano e profissional.

Foi nesta Escola que por sua vez exerceu, por muito pouco tempo para o que gostaria, esta actividade de professor ou melhor, de comunicador, formando uma geração de arquitectos que levam longe o nome da Escola do Porto. Mas a Espanha, a Itália, a Alemanha, a França, a Holanda, a Suíça, a Áustria, a Inglaterra, a Islândia, os Estados Unidos, a Argentina, o Brasil, o Japão, também o acolheram regularmente para seminários e conferências.

Voltamos ao ponto de partida. A Casa de Chá – Leça da Palmeira – Matosinhos. Ponto de partida para outras viagens. Porque os Siza têm o gosto da aventura e das viagens. O seu pai, Engenheiro Júlio Siza Vieira, nascido no Brasil, tinha 12 anos quando chegou a Portugal. Toda a sua vida adorou viajar e soube partilhar esta paixão com os seus filhos.
Teresa, a sua irmã, fundadora e directora do Centro Português de Fotografia é uma incansável embaixadora que também percorreu imensos países para dar a conhecer a fotografia portuguesa.

No fim dessas viagens há sempre o prazer do regresso.
Disse que « Todas as cidades são a minha cidade, à qual sempre regresso ». Então, bem-vindo a casa.

Cher Álvaro Siza Vieira,

Au nom du Ministre de la Culture et de la Communication et en vertu des pouvoirs qui me sont conférés, je vous remets les insignes de Commandeur de l’Ordre des Arts et des Lettres.

publicado em 05/07/2011

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