Apresentação [fr]

De Capela a Palácio

Dada a sua situação privilegiada nas margens do rio Tejo, a colina onde se situa o actual Palácio de Santos já era habitada durante o período romano. O nome refere duas irmãs, Máxima e Júlia e o seu irmão Veríssimo, martirizados durante o reinado de Diocleciano e cujos corpos, atirados à água, foram encontrados nesta margem do rio. Aí foram enterrados e a sua sepultura esteve na origem de uma pequena capela. O local tomou para sempre a designação de Santos (os Santos representados por bustos de pedra que podemos ver por cima do portão oeste da Igreja de Santos).

Durante o domínio dos Visigodos, foi erguido um templo em memória dos três mártires. O templo terá sido destruído durante a invasão dos Mouros. Mas o rei, D. Afonso I, depois da reconquista de Lisboa em 1147, mandou edificar sobre essas ruínas uma igreja consagrada aos três santos. Em 1194, o rei D. Sancho lega a igreja e as terras que a circundam à Ordem de Santiago de Espada que ali havia contruído alguns edifícios para a sua comunidade. À medida que a frente da reconquista se deslocava para o Sul, os cavaleiros da Ordem transferiam a sua sede para outro lado.

O convento de Santos ficou então reservado às viúvas e às filhas dos cavaleiros de Santiago (que tinham a prerrogativa de poder casar). A mulher da mais alta nobreza encarregada de representar a comunidade foi chamada Comendadeira-mor. A 5 de Setembro de 1490, as comendadeiras, levando consigo as relíquias dos três santos mártires, mudaram-se para um novo convento denominado Santos-o-Novo. O antigo mosteiro passou, então, a chamar-se Santos-o-Velho e foi alugado a Fernão Lourenço. Com uma larga faixa de terreno na margem do Tejo e um local de atracagem privado, o sítio era ideal para a residência deste riquíssimo banqueiro e armador que foi um dos principais financiadores da aventura marítima portuguesa.

De residência real a palácio aristocrático

Contudo, Fernão Lourenço não vivia nesse local. Em 1497, D. Manuel I, o Afortunado (rei de 1495 a 1521), acordou com ele uma cedência do contrato; como as comendadeiras continuavam a ser proprietárias do terreno, o rei D. Manuel celebra igualmente um contrato. A rica habitação burguesa foi transformada em residência real. Mas não foi a única. Desde 1497, o monarca utilizou o Palácio de Santos-o-Velho para as cerimónias do seu casamento com Dona Isabel, filha dos Reis Católicos de Espanha. As obras de transformação foram entregues ao Arquitecto João de Castilho, também autor do Palácio Real da Ribeira, que participou noutras realizações nos Mosteiros dos Jerónimos, da Batalha e de Tomar (tendo sido, por isso, o principal mestre de obra do estilo chamado “manuelino”).

À medida que o Palácio Real da Ribeira ia aumentando, o Palácio de Santos adquiria uma função recreativa dada a sua situação arejada, a sua vista panorâmica e os seus jardins abrigados.

Ao contrário do seu pai, D. João III (rei de 1521 a 1557) não parecia ter uma inclinação especial por este palácio (em 1514, ainda príncipe herdeiro, ia morrendo ao cair de uma das suas varandas). Tendo ficado fora de moda, o palácio atravessou um período obscuro. É nessa altura que se encontram as primeiras referências da sua ocupação pelos Lancastre (Luís de Lancastre (1505-1574), Comendador da Ordem d’Aviz, filho de Jorge de Lancastre (1481-1550), filho ilegítimo de D. João II e, portanto, primo do rei D. Manuel, mestre da Ordem Militar de Santiago, Duque de Coimbra e fundador da dinastia dos Lancastre).

D. Sebastião (rei de 1557 a 1578), sucessor de D. João III, considera, pelo contrário, o Palácio de Santos como uma das suas residências preferidas. Em 1576, o monarca escapou a uma violenta explosão dos armazéns de pólvora que se situavam nas margens do Tejo, do lado da actual Rua das Janelas Verdes. O sinistro danificou muitíssimo o Palácio. Em 1577, o Palácio de Santos é o teatro de uma cena histórica: o rei recebe a notificação do seu ministro contra a campanha, na África do Norte, que ele estava a preparar. A 25 de Junho de 1578, o rei D. Sebastião parte de Lisboa para Marrocos. Na véspera, assiste à Missa na Igreja de Santos-o-Velho e diz-se ter tomado a sua última refeição no Palácio, na mesa de mármore que se encontra no actual jardim. Esta cruzada contra os Mouros termina com a catástrofe de Alcácer Quibir (4 de Agosto) onde morre uma grande parte da nobreza portuguesa próxima do rei (um filho, Afonso, e dois netos de Jorge de Lancastre são mortos; um outro neto, Luís, é feito prisioneiro).

Depois desta perda, os Lancastre instalaram-se novamente no Palácio de Santos que se encontrava num estado lastimável, devido à explosão dos armazéns de pólvora e da sua ocupação pelo exército de Filipe I que veio, em 1580, afirmar as pretensões do seu monarca ao trono português, depois de extinta a dinastia de Aviz. Luís de Lancastre (1540-1613), regressado de Marrocos, depois de ter sido pago um grande resgate, compra o Palácio às Comendadeiras, mas esta aquisição foi contestada pelo poder real. Só em 1629, o seu filho, Francisco Luís (1580-1667), consegue finalmente comprar o Palácio definitivamente às Comendadeiras com a autorização real. O Palácio fica na posse dos Lancastre até 1909.

De palácio aristocrático a Embaixada de França

É durante a segunda metade do século XVII e a primeira metade do século XVIII que os Lancastre (primeiro José Luís (1639-1687), neto de Francisco Luís, e depois o seu irmão Luís (1644-1704) e o seu filho, Pedro (1697-1752)) confiaram a João Antunes o cuidado de dotar o Palácio dos mais notáveis embelezamentos (capela e sacristia, sala das porcelanas). Este período coincidiu também com o aumento do Palácio – os salões grandes que se abrem a Leste para um pequeno jardim e a fachada para a rua. É a Dom José Luís, Conde de Figueiró, possuidor de uma das maiores fortunas portuguesas, e à sua mulher, Dona Filipa de Vilhena, senhora de alta linhagem e muito prestígio, que o Palácio deve a iniciativa destas grandes obras. Não é por acaso que os brasões dos Lancastre e dos Vilhena estão representados na capela, por cima das duas portas, de um lado e do outro do altar e que se encontrem, lado a lado, sobre a estela funerária do casal na Igreja de Santos-o-Velho (as grandes obras desta igreja foram realizadas na mesma época por João Antunes).

Os Lancastre eram também grandes apreciadores de obras de arte. O inventário elaborado em 1704, por ocasião da morte de Luís, dá uma ideia da riqueza das suas colecções pela descrição de inúmeras porcelanas da China (de que o tecto da sala das porcelanas é o derradeiro testemunho), as sedas da China e os brocados de ouro da Índia, as peças de prata, as tapeçarias, as pinturas de numerosos mestres.

Em 1711, Pedro de Lancastre desposa Maria Sofia de Lorena, filha do primeiro Marquês de Abrantes, Rodrigo de Sá Menezes, homem de Estado, Embaixador reputado e também arquitecto e desenhador de talento. Apreciador de arte, Rodrigo de Sá Menezes protege numerosos artistas, como Francisco Paes, pintor ornamentista que contribuiu, assim, para a decoração do Palácio do genro do seu protector.

A 1 de Novembro de 1755 deu-se o terrível terramoto seguido de uma tempestade que destruiu a baixa de Lisboa. Não se sabe exactamente quais foram os prejuízos causados ao Palácio mas esta parte da cidade que, naquela época estava afastada do centro, foi relativamente poupada. Os arquivos deixam entender que numerosos familiares dos Lancastre foram, naquela altura, acolhidos no Palácio.

Quando a 2ª Duquesa de Abrantes morre, em 1780, o título passa definitivamente para os Lancastre: Pedro (1762-1828) torna-se o 3° Marquês de Abrantes. É a razão pela qual o Palácio de Santos também é conhecido por Palácio de Abrantes. Pedro de Lancastre empreende grandes obras, particularmente as da decoração dos dois salões grandes pelo pintor Pedro Alexandrino de Carvalho.

Alguns anos mais tarde, o 5° Marquês de Abrantes, Pedro de Lancastre e Távora, aluga o Palácio, de 1841 a 1849, a Marie Amélie de Beauharnais, Duquesa de Bragança, viúva do Imperador Pedro I do Brasil. Em 1853, uma pequena parte do Palácio serve de residência à Infanta Ana de Jesus Maria, irmã dos reis de Portugal Pedro e Miguel, e ao seu marido, o Marquês de Loulé.

Em 1870, por morte de José de Lancastre e Távora (irmão de Pedro), o Palácio é alugado ao Ministro de França em Lisboa, o Conde Armand, que aí instala a legação. Em 1880, João de Lancastre e Távora (1864-1917), habita ainda uma parte do edifício. A 14 de Agosto de 1909, Saint-René Taillandier, Ministro de França, compra-lhe o Palácio em nome do Governo Francês. Terminam, assim, mais de trezentos anos de vida comum entre o Palácio de Santos e a família de Lancastre. Mas começa um novo episódio da história, mais que milenar, deste local de Santos, dedicado agora às relações, também pluriseculares, entre a França e Portugal.

Em 1937, a parte ocidental do edifício foi ocupada pelo Institut Français.

Em 1948, a legação torna-se Embaixada de França.

publicado em 04/05/2017

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